segunda-feira, 9 de novembro de 2009

o diabo bate à porta

o relógio se aproximava das três da manhã. eu estava em casa, insone, à espera de mais um dia medíocre em minha vida pouco digna de pena. momentos antes, a campainha tocara e eu, preguiçoso como uma mula, não esbocei a menor vontade de abrir a porta. minha maior preocupação era a de esperar o sol nascer, e enquanto isso não acontecia, fumava um cigarro atrás do outro.

tinha ido ao médico no dia anterior. suspeita de câncer de pulmão, ele disse. ainda que fosse uma mera suspeita (o que se confirmaria mais tarde), aquilo me devastou por inteiro. para ter a mínima chance de cura, deveria renunciar a todo um estilo de ida que me era mais intrínseco do que o próprio ato de respirar. não sabia o que fazer. tinha trinta anos e estava a beira de ter um ataque de nervos.

no terceiro tocar da campainha, levantei-me e fui em direção à porta. que merda - eu disse baixinho - que cretino me atrapalharia a essa hora da noite?, reclamei. ao caminhar em direção àquele que me tumultuaria a noite, reparei que as portas estavam entreabertas. detesto portas entreabertas. parece que a qualquer momento algo ou alguém vai aparecer do mais absoluto nada e lhe dar um susto. mais: o barulho do abrir e fechar de portas de madeira (todas as de casa eram desse tipo) me apavora mais do que qualquer outra coisa no mundo. sem no entanto fechá-las, coloquei a mão na chave a muito lentamente abri o portão. tenho algo que pode lhe ajudar, meu caro - disse o imponente homem. conhecia-o de algum lugar, vira-o umas duas vezes, ainda que não lembrasse quando nem muito menos onde.

o imponente, elegante e muito bem-vestido homem era o diabo em pessoa, me trazia uma sentança que eu não tinha como recusar. não só eu a aceitaria, como a carregaria comigo pelo resto de minha vida. eu só não fazia a menor ideia de onde este acordo, selado numa maldita noite passada em claro, me levaria.

mesmo assim, não se pode dizer exatamente que eu tenha vendido a alma ao diabo.

não foi bem assim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009